A segunda-feira
amanheceu incerta: nevoeiro no chão e pesadas nuvens no céu. A
temperatura estavaem elevação. Haviaum movimento nervoso de
estudantes nas imediações do Parque da Cidade, inteiramente cercado
pelo cordão de isolamento da Guarda Municipal.
A tropa dispersou com gazes de efeito moral o agrupamento de
jovens, que subiu em direção à Rodovia Geraldo Scavone. O comando
abaixou a guarda, imaginando que o vírus da revolta se moveria para
São José dos Campos.
Foi um grande erro estratégico, pois os manifestantes foram se
organizar no Estádio do JAC, que mudou de nome pela quarta vez:
- Companheiros, a partir de agora este será nosso quartel-general:
o Estádio da Revolução.
A turba comemorou em uníssono a retomada do patrimônio
anteriormente espoliado das massas trabalhadoras:
- Viva! Viva! Viva!
O movimento era promissor. Enfim, a sociedade civil se organizava
para combater as forças do mal que parasitam nossa gloriosa cidade.
O sindicato dos funcionários municipais emprestou o megafone usado
pelo líder, que veio especialmente da Capital para ensinar como se
decretava o fim da miséria social:
- Gente, atenção. Não é só uma questão de R$ 6,00 mensais em passe
de ônibus. Também a questão da fotografia e filmagem, atos
democráticos proibidos pela ditadura instalada nos parques
municipais – o jovem com camiseta de Che Guevara insuflava o
grupo.
- Isso mesmo! E nossa saúde pública, meu Deus! Quem pode com ela?
– emendou outro, do Jardim Pitoresco.
- Abaixo a tirania! Abaixo a tirania! Abaixo a tirania!
A cada minuto, chegava mais gente: veio manifestante fantasiado de
burro, de sacola de supermercado e de garota de programa. Logo
após, chegou uma turma numerosa de ciclistas que queriam
ciclovias.
Além de gente bonita, havia também pessoas desprovidas de
formosura, como aquele senhor com boca de escavadeira.
A notícia de que a manifestação descia a colina para invadir a
cidade foi recebida com frieza no Paço. O Prefeito não estava
preocupado: apenas emitiu uma nota indiferente e dúbia à imprensa,
em que desejava a manutenção da felicidade dos moradores.
A única parte da mensagem que realmente deu para entender foi a
repetida ressalva de que a gestão finda no ano 2000 deixara os
cofres da cidade em situação de extrema penúria e que foi um
desafio imenso para as administrações seguintes organizar o
desenvolvimento e embelezar a urbe.
Atrás dos manifestantes com cartazes de repúdio generalizado ao
status quo, vinha um vereador barbudo e magro, que
cumprimentava todo mundo com extrema simpatia, até quem não o
conhecia.
Já quem o conhecia, não estranhou sua presença – apesar de
participar da bancada situacionista, era parlamentar do povo,
proclamava-se independente, o trabalho dele era servir a
necessidade da população.
Em meio à confusão, o edil sugeriu a um assessor que anotasse de
cada manifestante o nome, aniversário, endereço e se desejava
participar de associação para aquisição de lote com valores abaixo
do mercado e construção da casa própria em mutirão.
Muitos guardas municipais simpáticos à manifestação desertavam das
fileiras e se agregavam à multidão furiosa, que agitava os braços e
entoava seu canto de protesto com notas musicais primárias:
- Cidade que dá ré é cidade de dar dó! Cidade que dá ré é cidade de
dar dó!
Ante o perigo iminente, a Praça dos Três Poderes se esvaziava: na
cobertura do Paço, o dono da viação pousou o maior helicóptero da
frota e saiu de férias com a família para Paris.
O Prefeito, os Secretários Municipais e a corte entraram em contato
com os familiares mais próximos e fugiram para o sul de Minas.
Quando a comitiva parou em Pedralva e pediu para tomar banho, a
resposta veio doce e melíflua:
- Claro, compadre. Custa R$ 15,00 por cabeça. Mas espera um
tantinho com mais um dedo de prosa, que o café está prestes a sair
do fogão à lenha.
O candidato a futuro Prefeito tomou a frente na negociação, para
tentar dissuadir a cobrança do hospitaleiro primo:
- Credo, homem! Não se cobra de quem está em necessidade.
- Só copo d’água para alma penada, besta. Não conhece o
Código Tiradentes? Você parece estudante de faculdade em jogos
universitários, de tanto que reclama, que trem! Tome o cafezinho e
se acalme.
Os Juízes fugiram do Fórum em carros blindados, que saíram da
portaria dos fundos. Já os serventuários, infelizmente, nem todos
se salvaram da multidão enfurecida – só os que se esconderam
entre as pilhas de processos de execução fiscal.
Na comunidade jurídica, tiveram mais sorte os Promotores e
Defensores Públicos. Sabendo dos distúrbios, os Promotores nem se
atreveram a sair de casa,em São Josédos Campos, para o trabalho. Já
a simpatia granjeada pela beleza universal salvou um dos Defensores
Públicos, que aproveitou para solicitar à liderança feminina que
também poupasse a vida de seu colega.
Como a TV Câmara filmava toda a carnificina, os cinegrafistas e
jornalistas da Casa de Leis também sobreviveram. Mas o canal foi
tomado pelos manifestantes, cuja cúpula transmitia boletins de hora
em hora, com capuzes escondendo rostos, fuzis e metralhadoras à
mão, propagando cada conquista da revolução das massas. Parecia TV
estatal paquistanesa.
Nas ruas, a multidão saqueou a loja JB e os supermercados Maktub e
Shibata. A balbúrdia crescia: até os vereadores de oposição tiveram
suas barbas arrancadas manualmente fio a fio e exibidas do alto do
coreto da Praça Conde Frontin, para delírio do populacho.
A bandeira afonsina exposta acima do toldo azul do Juizado Especial
Cível e Criminal foi arrancada do mastro e queimada em frente ao
Museu de Antropologia do Vale do Paraíba, ato simbólico de repúdio
às instituições que chocou as avós da cidade, que tudo viam,
atônitas, das sacadas e janelas dos apartamentos dos edifícios
Pioneiro e Mansão do Vale.
Quando tudo parecia resolvido a favor dos manifestantes, que já
relaxavam a vigilância, a Fundação Cultural, último refúgio do
Império, resolveu partir para o revide mortal.
As poderosas caixas de som do trio elétrico de propriedade da
empresa parceira nos eventos musicais entraram triunfantes pela
Ponte da Avenida São João, em direção à cidade pela Rua Quinze de
Novembro.
Os altofalantes, que costumavam ser emprestados para distribuir
promessas vãs de políticos em campanha, desta feita vibravam
óperas, árias e música erudita da melhor qualidade executadas
durante o Festival Maria Callas e as apresentações da Orquestra
Sinfônica Jovem, no máximo volume.
Os manifestantes caiam mortos, duros e esturricados como
pernilongos atingidos por raquete elétrica chinesa. Ninguém
suportava o bom gosto daquelas peças musicais que varavam os
séculos, para delírio das avós do Pioneiro e da Mansão do Vale.
A central revolucionária instalada na TV Câmara estava protegida
pelo isolamento acústico, mas via a mortandade de seus asseclas
pelos monitores e não poderia permanecer inerte.
- Liguem para o dono da viação,em Paris. Peçaque envie verba para
reforços imediatamente! A gorda, nossa nova chefe de gabinete,
negocia – apontou o chefe para ela. – Ofereça-lhe nova
concessão do serviço, por mais 130 anos, mas com preço da passagem
20 centavos mais barato.
Dali a pouco, enquanto os manifestantes se reuniam refugiados no
Estádio da Revolução, maquinando novas estratégias para
desestabilizar o Antigo Regime, funcionários da viação distribuíam
folhetos promocionais:
Estava escrito no folder: “venha comemorar a Revolução na
Fazenda Coleginho. Festa o dia todo. Duas bandas de forró, quatro
duplas sertanejas e open bar. Entrada franca para mulher sem
camiseta nenhuma e homem com camiseta da Revolução ou fio de barba
de vereador”.
Não demorou dez segundos para o estádio esvaziar e os companheiros
marcharem em massa para a danceteria. A festa durou sete dias e
sete noites. Ao final das bacantes, quase todos morreram por
overdose alcoólica.
Os sobreviventes também não tiveram vida longa, como os detentos
famosos que um dia finalmente liberados do presídio de Taubaté:
brigaram de faca e revólver no estacionamento da casa e todos
mataram e morreram entre si.
Enfim, a cidade estava vazia e pacificada. Quando alguns tomaram
coragem de sair de suas tocas, ninguém sabia ao certo quem
assumiria o poder, mas isso era irrelevante. Talvez tudo
permanecesse igual.
O movimento se espalhava pelo País como se fosse o vírus Ebola:
destruía tudo que encontrasse pela frente e deixava aquele aspecto
de terra arrasada. Em cada vilarejo, só mudavam os logradouros e
alguns nomes envolvidos.