Home Data de criação : 10/03/05 Última atualização : 13/06/19 09:34 / 104 Artigos publicados

A TÁBUA DE SALVAÇÃO  (Cidadania) escrito em quarta 19 junho 2013 09:30

Blog de cidadaniaconsumidor :Realidade & Imaginação, A TÁBUA DE SALVAÇÃO

            O gigante despertou. O povo vai às ruas. A massa protesta, quer exercer seu poder, colocar ordem na casa. Só que cada um tem sua reivindicação e o movimento transforma-se num mosaico acéfalo.

            Liderança não é bem-vinda. A população repudia ser manipulada. Os verdadeiros detentores do poder não devem servir de palanque eleitoral para aproveitadores e demagogos.

            Assim, ganha espaço e devem trabalhar nos bastidores as instituições verdadeiramente filantrópicas e os pensadores que sempre impulsionaram, humilde e anonimamente, o progresso desta pátria parasitada por criminosos políticos.

            O cavalo passa selado à nossa frente, não podemos perder a oportunidade de surfar a onda avassaladora das mudanças. A história não é escrita a lápis e depois arriscamos imitar os egípcios, desnorteados com as consequências de nossa própria revolta, campo aberto para o pior tipo de aproveitador político: o déspota.

            Cada cidade tem suas demandas específicas, a falta de freios morais dos governantes ajudou a derrubar o muro até então intransponível que nos segregava das delícias do jardim palaciano e sua Corte devassa.

            Obviamente não queremos só o corte de alguns centavos nas tarifas. A decência demonstra-se com atos concretos. Estamos fartos de promessas genéricas de transporte, saúde e educação pública de qualidade.

            A plataforma a ser exigida deve previamente ser discutida, formulada e aprovada em discussão conjunta, dentro da instituição que desejar aprimorar a localidade em que vive. E, em seguida, distribuída, como material pronto e sem autoria, no centro das discussões: as redes sociais.

            Os manifestantes procuram desesperadamente uma lista de causas definidas para lutar. A fim de salvar do afogamento seu idealismo, agarrar-se-ão às reivindicações como uma tábua que flutua à tona, depois da cachoeira das tormentas.

            As ideias iniciais vêm com facilidade à mente.

            Em Jacareí, para moralizar a corrupção, já começaríamos bem se exigíssemos da Prefeitura e da Câmara a demissão ou renúncia imediata dos Secretários Municipais e Vereadores condenados pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.

            Na área médica, o órgão de classe local poderia propor um piso salarial para a categoria que atraísse a contratação de pediatras para regime de dedicação exclusiva aos postos de saúde dos bairros e UPA.

            No setor de transportes, além da redução das tarifas, deve ser exigida a implantação imediata do bilhete único e a compatibilidade dos equipamentos de zona azul para qualquer forma de pagamento à vista.

            Os ouvidos do povo procuram voz lúcida - a semente foi lançada. 

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O MOVIMENTO PASSE-LIVRE EM JACAREÍ  (Contos) escrito em segunda 17 junho 2013 10:37

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            A segunda-feira amanheceu incerta: nevoeiro no chão e pesadas nuvens no céu. A temperatura estavaem elevação. Haviaum movimento nervoso de estudantes nas imediações do Parque da Cidade, inteiramente cercado pelo cordão de isolamento da Guarda Municipal.

            A tropa dispersou com gazes de efeito moral o agrupamento de jovens, que subiu em direção à Rodovia Geraldo Scavone. O comando abaixou a guarda, imaginando que o vírus da revolta se moveria para São José dos Campos.

            Foi um grande erro estratégico, pois os manifestantes foram se organizar no Estádio do JAC, que mudou de nome pela quarta vez:

            - Companheiros, a partir de agora este será nosso quartel-general: o Estádio da Revolução.

            A turba comemorou em uníssono a retomada do patrimônio anteriormente espoliado das massas trabalhadoras:

            - Viva! Viva! Viva!

            O movimento era promissor. Enfim, a sociedade civil se organizava para combater as forças do mal que parasitam nossa gloriosa cidade. O sindicato dos funcionários municipais emprestou o megafone usado pelo líder, que veio especialmente da Capital para ensinar como se decretava o fim da miséria social:

            - Gente, atenção. Não é só uma questão de R$ 6,00 mensais em passe de ônibus. Também a questão da fotografia e filmagem, atos democráticos proibidos pela ditadura instalada nos parques municipais – o jovem com camiseta de Che Guevara insuflava o grupo.

            - Isso mesmo! E nossa saúde pública, meu Deus! Quem pode com ela? – emendou outro, do Jardim Pitoresco.

            - Abaixo a tirania! Abaixo a tirania! Abaixo a tirania!

            A cada minuto, chegava mais gente: veio manifestante fantasiado de burro, de sacola de supermercado e de garota de programa. Logo após, chegou uma turma numerosa de ciclistas que queriam ciclovias.

            Além de gente bonita, havia também pessoas desprovidas de formosura, como aquele senhor com boca de escavadeira.

            A notícia de que a manifestação descia a colina para invadir a cidade foi recebida com frieza no Paço. O Prefeito não estava preocupado: apenas emitiu uma nota indiferente e dúbia à imprensa, em que desejava a manutenção da felicidade dos moradores.

            A única parte da mensagem que realmente deu para entender foi a repetida ressalva de que a gestão finda no ano 2000 deixara os cofres da cidade em situação de extrema penúria e que foi um desafio imenso para as administrações seguintes organizar o desenvolvimento e embelezar a urbe.

            Atrás dos manifestantes com cartazes de repúdio generalizado ao status quo, vinha um vereador barbudo e magro, que cumprimentava todo mundo com extrema simpatia, até quem não o conhecia.

            Já quem o conhecia, não estranhou sua presença – apesar de participar da bancada situacionista, era parlamentar do povo, proclamava-se independente, o trabalho dele era servir a necessidade da população.

            Em meio à confusão, o edil sugeriu a um assessor que anotasse de cada manifestante o nome, aniversário, endereço e se desejava participar de associação para aquisição de lote com valores abaixo do mercado e construção da casa própria em mutirão.

            Muitos guardas municipais simpáticos à manifestação desertavam das fileiras e se agregavam à multidão furiosa, que agitava os braços e entoava seu canto de protesto com notas musicais primárias:

            - Cidade que dá ré é cidade de dar dó! Cidade que dá ré é cidade de dar dó!

            Ante o perigo iminente, a Praça dos Três Poderes se esvaziava: na cobertura do Paço, o dono da viação pousou o maior helicóptero da frota e saiu de férias com a família para Paris.

            O Prefeito, os Secretários Municipais e a corte entraram em contato com os familiares mais próximos e fugiram para o sul de Minas. Quando a comitiva parou em Pedralva e pediu para tomar banho, a resposta veio doce e melíflua:

            - Claro, compadre. Custa R$ 15,00 por cabeça. Mas espera um tantinho com mais um dedo de prosa, que o café está prestes a sair do fogão à lenha.

            O candidato a futuro Prefeito tomou a frente na negociação, para tentar dissuadir a cobrança do hospitaleiro primo:

            - Credo, homem! Não se cobra de quem está em necessidade.

            - Só copo d’água para alma penada, besta. Não conhece o Código Tiradentes? Você parece estudante de faculdade em jogos universitários, de tanto que reclama, que trem! Tome o cafezinho e se acalme.

            Os Juízes fugiram do Fórum em carros blindados, que saíram da portaria dos fundos. Já os serventuários, infelizmente, nem todos se salvaram da multidão enfurecida – só os que se esconderam entre as pilhas de processos de execução fiscal.

            Na comunidade jurídica, tiveram mais sorte os Promotores e Defensores Públicos. Sabendo dos distúrbios, os Promotores nem se atreveram a sair de casa,em São Josédos Campos, para o trabalho. Já a simpatia granjeada pela beleza universal salvou um dos Defensores Públicos, que aproveitou para solicitar à liderança feminina que também poupasse a vida de seu colega.

            Como a TV Câmara filmava toda a carnificina, os cinegrafistas e jornalistas da Casa de Leis também sobreviveram. Mas o canal foi tomado pelos manifestantes, cuja cúpula transmitia boletins de hora em hora, com capuzes escondendo rostos, fuzis e metralhadoras à mão, propagando cada conquista da revolução das massas. Parecia TV estatal paquistanesa.

            Nas ruas, a multidão saqueou a loja JB e os supermercados Maktub e Shibata. A balbúrdia crescia: até os vereadores de oposição tiveram suas barbas arrancadas manualmente fio a fio e exibidas do alto do coreto da Praça Conde Frontin, para delírio do populacho.

            A bandeira afonsina exposta acima do toldo azul do Juizado Especial Cível e Criminal foi arrancada do mastro e queimada em frente ao Museu de Antropologia do Vale do Paraíba, ato simbólico de repúdio às instituições que chocou as avós da cidade, que tudo viam, atônitas, das sacadas e janelas dos apartamentos dos edifícios Pioneiro e Mansão do Vale.

            Quando tudo parecia resolvido a favor dos manifestantes, que já relaxavam a vigilância, a Fundação Cultural, último refúgio do Império, resolveu partir para o revide mortal.

            As poderosas caixas de som do trio elétrico de propriedade da empresa parceira nos eventos musicais entraram triunfantes pela Ponte da Avenida São João, em direção à cidade pela Rua Quinze de Novembro.

            Os altofalantes, que costumavam ser emprestados para distribuir promessas vãs de políticos em campanha, desta feita vibravam óperas, árias e música erudita da melhor qualidade executadas durante o Festival Maria Callas e as apresentações da Orquestra Sinfônica Jovem, no máximo volume.

            Os manifestantes caiam mortos, duros e esturricados como pernilongos atingidos por raquete elétrica chinesa. Ninguém suportava o bom gosto daquelas peças musicais que varavam os séculos, para delírio das avós do Pioneiro e da Mansão do Vale.

            A central revolucionária instalada na TV Câmara estava protegida pelo isolamento acústico, mas via a mortandade de seus asseclas pelos monitores e não poderia permanecer inerte.

            - Liguem para o dono da viação,em Paris. Peçaque envie verba para reforços imediatamente! A gorda, nossa nova chefe de gabinete, negocia – apontou o chefe para ela. – Ofereça-lhe nova concessão do serviço, por mais 130 anos, mas com preço da passagem 20 centavos mais barato.

            Dali a pouco, enquanto os manifestantes se reuniam refugiados no Estádio da Revolução, maquinando novas estratégias para desestabilizar o Antigo Regime, funcionários da viação distribuíam folhetos promocionais:

            Estava escrito no folder: “venha comemorar a Revolução na Fazenda Coleginho. Festa o dia todo. Duas bandas de forró, quatro duplas sertanejas e open bar. Entrada franca para mulher sem camiseta nenhuma e homem com camiseta da Revolução ou fio de barba de vereador”.

            Não demorou dez segundos para o estádio esvaziar e os companheiros marcharem em massa para a danceteria. A festa durou sete dias e sete noites. Ao final das bacantes, quase todos morreram por overdose alcoólica.

            Os sobreviventes também não tiveram vida longa, como os detentos famosos que um dia finalmente liberados do presídio de Taubaté: brigaram de faca e revólver no estacionamento da casa e todos mataram e morreram entre si.

            Enfim, a cidade estava vazia e pacificada. Quando alguns tomaram coragem de sair de suas tocas, ninguém sabia ao certo quem assumiria o poder, mas isso era irrelevante. Talvez tudo permanecesse igual.

            O movimento se espalhava pelo País como se fosse o vírus Ebola: destruía tudo que encontrasse pela frente e deixava aquele aspecto de terra arrasada. Em cada vilarejo, só mudavam os logradouros e alguns nomes envolvidos.

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O SEGREDO DA LUSA É CANDINHO  (Esportes) escrito em sábado 15 junho 2013 03:48

Blog de cidadaniaconsumidor :Realidade & Imaginação, O SEGREDO DA LUSA É CANDINHO

            Ainda é muito cedo para previsões no campeonato brasileiro. Enquanto o mercado europeu está aberto, jogadores brasileiros vão e voltam, os elencos modificam-se consideravelmente.

            No entanto, anotem: Portuguesa não será rebaixada, pelo menos sob a batuta do gerente de futebol Candinho, raposa velha de nosso futebol, retranqueiro prático, comandante disciplinador, conhecedor do jogo.

            Conheci-o quando eu era pequeno, meu pai era seu amigo. Então, acompanho a carreira dele atentamente e torço por ele.

            Antes de ser eterno técnico da Portuguesa, na década de oitenta, ele foi eterno técnico do Juventus da Mooca, quando o presidente deste grande clube e pequeno time era José Ferreira Pinto, poderoso e influente na Federação Paulista de Futebol.

            O Moleque Travesso aprontava sempre contra o Corinthians. Candinho tinha seus homens de confiança dentro de campo. Os principais eram Gatãozinho, camisa 10 (filho de outro jogador, Gatão), e Leís, xerifão da zaga.

            Candinho foi campeão da Taça de Prata com o Juventus, título equivalente ao atual campeonato brasileiro da série B, no início da década de 1980. Lembro de alguns outros jogadores daquela boa equipe, como Ilo (centroavante) e César (goleiro).

            Na temporada de 1984, Candinho foi treinar o combalido América de São José do Rio Preto, que, graças a ele, se ergueu e fez ótima campanha no paulista, alcançando as quartas-de-final.

            Foi justamente nesse campeonato, e contra o América, que Rodolfo Rodrigues, goleiro do Santos, fez aquela série fantástica de defesas à queima-roupa, até hoje reprisadas na televisão.

            Aliás, eu vi aquele jogo ao vivo pela tevê: o América de Candinho deu sufoco no Santos (que foi o campeão do torneio), em plena Vila Belmiro.

            Já naquele tempo tive a certeza de que Candinho sabia muito de futebol, pois a campanha do América foi surpreendente, bem distinta dos outros anos, quando sempre lutava contra o rebaixamento.

            O Rubro só foi desclassificado nas quartas-de-final, quando cruzou com a forte Ponte Preta, dos craques Dicá e Marcelo (hoje técnico do Cruzeiro), que anos antes fora duas vezes vice-campeã paulista, em 1979 e 1981.

            Quando Candinho foi para a Portuguesa, levou Leís consigo. Acredito que ele aprendeu no Juventus essa receita que o consagrou: trabalhar com jogadores de sua confiança.

            Começava uma jornada de grande sucesso, que culminou com o vice-campeonato brasileiro de 1996. O título foi perdido para o Grêmio, com um gol no último minuto. Ninguém poderia imaginar que a Lusa fosse tão longe.

            Candinho sempre foi um profissional endêmico. A especialidade dele é fortalecer time pequeno. Não teve o mesmo sucesso nos times grandes que dirigiu: Flamengo, Corinthians e Palmeiras.

            Sei a razão: Candinho é pessoa educada, disciplinador, não dá espaço para folgados, não se deixa afetar por influências externas e coíbe malandragem de jogador. Ou seja, é o tipo de trabalho que dá certo quando diretoria não atrapalha.

            No início da década passada, quando Leão foi demitido da seleção às vésperas do jogo contra a Venezuela fora de casa, ele era o assistente técnico e foi chamado emergencialmente para dirigir o Brasil.

            Sem tempo para montar uma equipe, resolveu não inventar moda - adotou a solução mais racional e prática: colocou o time do Vasco da Gama, então campeão brasileiro, para jogar. Entrosamento garantido sem precisar de treino!

            Criaram-se as condições ideais para Romário, o homem decisivo e líder do time, reinar soberano. O Brasil não apenas ganhou o jogo, como aplicou uma goleada que nunca mais repetiu nas eliminatórias, ainda mais fora de casa: sete a zero.

            Os costumes mudaram bastante, o mundo está virado. Hoje, jogador de futebol não é mais funcionário do clube - é estrela e manda mais que o presidente. A disciplina foi substituída pelos paparicos. Como nas escolas: aluno é quem manda e professora apanha.

            Assim, os métodos de Candinho foram substituídos por outros mais “modernos” e ele deixou o banco de reservas. Virou gerente de futebol. Pegou a Lusa lá embaixo e já conseguiu dois méritos inimagináveis: subiu no paulistão e no brasileirão.

            Porém, o mais difícil mesmo fez no ano passado: a duras penas, manteve a Portuguesa na primeira divisão do brasileiro, quando a mídia inteira dava como certo o retorno imediato à Série B.

            A grande sacada de Candinho foi buscar no futebol de várzea um campeão esquecido e prematuramente aposentado – o goleiro Dida. Era a peça de experiência que faltava para fechar a defesa.

            Este ano, o ex-técnico trouxe outro veterano para trabalhar consigo – o meia Souza, ex-São Paulo e Grêmio, jogador de boa índole, cumpridor de seus deveres e humilde funcionário, bem no estilo que o chefe gosta.

            Para completar e deixar o time ainda mais forte, Candinho foi ao São Paulo e encheu a sacola de itens dispensados pelo Tricolor, como Cañete e Fabrício. Formou um time de baixo orçamento.

            À imagem e semelhança da gerência, o técnico do time é coronel da PM e já mandou recado bravo para quem é contra sua coleção de empates, o que a imprensa “moderna” classificou como politicamente incorreto.

            A sensação da equipe está no miolo de zaga. Para Candinho, zagueiro não é só para proteger, tem de intimidar. Os viris Lima e Valdomiro lembram-me aquela célebre zaga do América de 1984: Orlando Fumaça e Jorge Lima, que avistavam o adversário e logo encontravam a melhor maneira de desprender a carne do osso.

            Para não rebaixar, bastam 38 pontos. Ou seja, empatar todos os jogos. Além da amizade de meu saudoso velho, continuo firme na torcida por uma questão filosófica: alguns valores antigos ainda são úteis à nossa sociedade, que anda carente de referências.

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O PRIMEIRO RELÓGIO  (Cr?nicas) escrito em sexta 14 junho 2013 03:27

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         Tem hora que se lembra de tanta história boa para contar e escrever, que até espanta o sono e o dia começa mais cedo. Lembrei-me de alguns fatos vividos com meu pai que darão pelo menos uma semana de novas crônicas, que pretendo escrever. Mas, por ora, prefiro contar outra história, com minha mãe.

            Antigamente, os pais dividiam-se basicamente em duas categorias – os que temiam vigorosamente que os filhos se envolvessem com maconheiros (designação genérica da época para viciados e traficantes) e os que não ligavam tanto para os medos do mundo.

            Minha mãe, que se esforçava além do possível pela família, ao me vestir para sair fazia uma série de recomendações apropriadas àquele tempo, dependendo do local de destino:

            - Não desgrude de suas irmãs, ande de mãos dadas com elas. Se elas fumarem, você me conta.

            - Não aceite doces ou brinquedos de estranhos, há muitos tarados que abusam de crianças por aí. Normalmente, eles convidam para brincar ou comer na casa deles, fique atento.

            - Cuidado com refrigerante aberto. Não tire o olho, sempre tem maconheiro interessado em depositar bolinhas e drogas.

            - Não comente de política na escola. Esqueça o MDB! Não fale nem sobre a seleção soviética de futebol.

            - Se alguém disser que você é judeu, explique que seu sobrenome é polonês e católico, como o novo Papa.

            Apesar de alarmistas, as recomendações eram ternas, pois tinham aquele cheiro rosado de mãe dedicada aos filhos. Os aprestos eram cheios de capricho, eu era capaz de sentir o amor até na forma como ela me penteava.

            Duro mesmo era a falta de dinheiro, fruto de limite orçamentário, de professora desquitada com três filhos para cuidar numa casa grande, misturado com temor de potencial poder aquisitivo para compra de drogas.

            Nunca ganhei mesada, nem imagino como seja a sensação. Quando queria qualquer coisa, tinha de pedir. As demandas eram analisadas individualmente – brinquedos ficavam para o Dia das Crianças, Natal ou aniversário.

            Já o trocado exato (mil cruzeiros, uma nota marrom com a face do Barão do Rio Branco) para subir o bairro caminhando até a padaria mais próxima e comprar um bombom Sonho de Valsa (o único disponível na alta araraquarense) era de mais fácil atendimento, desde que não se tornasse um hábito.

            Eu não conseguia entender como alguns colegas de classe ganhavam relógios de pulso de seus pais. Com números digitais, ainda por cima, o máximo da tecnologia! O que eles faziam para merecer, se, aliás, nem eram bons alunos?

            Foi então que comecei a perceber que existiam modos diferentes de as famílias educarem seus filhos. Para aplacar minha sensação de azar pela vontade de ter um relógio de pulso, minha mãe explicou:

            - Filho, só pessoas responsáveis usam relógio sabiamente. Para isso, você deve ser alguém preocupado com o tempo, o que nem é o caso. Além disso, precisa primeiramente aprender a ler os ponteiros de horas e minutos.

            Relógio digital era incogitável lá em casa, assim como calculadoras. Era prudente que aprendêssemos de cor a tabuada e usássemos relógios mais tradicionais e duradouros, de ponteiros.

            Assim, eu comecei a pedir a todos os adultos que me ensinassem a entender o relógio. Confesso que levou algum tempo, precisei até trocar de professor mais de uma vez.

            Minha vovó de São Paulo veio me visitar, ficou com pena e me deu uma corrente de prata de presente, com uma cruz dentro de uma chapa curva. Mamãe repreendeu suavemente a ex-sogra, prevendo que eu romperia a corrente. E rompi mesmo, semanas depois.

            Que decepção comigo mesmo!

            Fiquei tão triste, que acho que aprendi ali a dolorosa primeira lição de cuidar bem e dar valor aos objetos pessoais. Aí, sim: foi justamente nessa semana que mamãe me presenteou com o primeiro relógio de pulso.

            Estávamos perto do Natal, foi presente antecipado.

            Era um relógio de metal, pulseira fina, quadro pequeno, em formato redondo e cor branca. As horas eram escritas em algarismos romanos (ela aproveitou para me ensiná-los, quebrei a cabeça tentando entender), com delicada tinta preta.

            A comemoração foi ótima: fui ao cinema com minhas irmãs. Elas foram assistir ao primeiro filme de Jornada nas Estrelas. Foi então que descobri que os ponteiros metálicos do relógio eram fosforescentes. Que legal!

            O filme era um pouco monótono para uma criança tão tenra, talvez o tema fosse avançado demais para minha idade. Eu já estava muito cansado e adormeci. Foi a única vez que dormi no cinema.

            A sala de exibição ficava na rua principal da cidade. O nome era perfeito: Cine Central. Era todo mostarda, marrom e carmesim. O fundo era separado do restante das fileiras por um vidro com o aviso luminoso “setor de fumantes”. Foi lá que ficamos, eu e minhas irmãs adolescentes que fumavam escondido.

            Não sei se toda a história se passou assim, mas pelo menos é desse jeito que me lembro. O certo é que eu pagaria o salário de um mês para reencontrar meu primeiro relógio. E o salário da vida toda, pela minha mãe.

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O MONSTRO DO LAGO  (Contos) escrito em quinta 13 junho 2013 16:46

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            Há um lago defronte da minha casa. Um lago enorme, da extensão de um estádio de futebol. No fundo da paisagem, ele é rodeado por um alto bambuzal, que forma um gigantesco painel verde. Ao lado, existe um misterioso bosque de árvores nativas.

            Em manhãs frias, o lago parece um espelho cinza e um nevoeiro sinistro emerge dele. É um lago muito profundo, formado a partir de um porto de areia. Segundo informações obtidas no condomínio, a cava tem80 metrosde profundidade.

            Marcos Christian, que é vigilante terceirizado no Ministério Público e, nas horas vagas, jardineiro e lavador de automóveis, conhece bem o lago, pois nadou bastante nele quando criança. Antes do condomínio, a propriedade era uma fazenda abandonada.

            Sou temente a Deus e nunca entrei em detalhes, mas sei que Marcos Christian também entende muito de assombração e sobrenatural. Tanto de ouvir dizer, como de presenciar por aí.

            Pois bem: de acordo com nosso sensitivo ministerial, o lago, que ora vejo pela janela da biblioteca enquanto escrevo estas linhas, atrai muita maldição. Ele me confidenciou tão sério, um ano atrás, que não tive coragem de duvidar. Só não explicou os porquês.

            Olhem: uma pena que eu não conhecia Marcos Christian antes de comprar o terreno ou construir a casa. Se eu soubesse previamente desses detalhes metafísicos, confesso que teria passado o mico adiante.

            Você, leitor, pode não acreditar, mas eu garanto: embora eu nunca estive nas alturas da Escócia, o Monstro do Lago Ness de fato existe. Sei disso porque o lago do condomínio também tem um primo brasileiro do dito cujo.

            Sou suspeito para dissertar sobre ele, pois nada tenho de bom a dizer a respeito desse cidadão. Que demonstre toda a sua monstruosidade, tudo bem. Só que ele não tinha o direito de prejudicar o andamento dos meus afazeres domésticos.

            Indubitavelmente, a profundidade desses lagos é o principal fator que contribui para o surgimento desse tipo de ser teratológico. Oitenta metros abaixo, nem se sabe onde a profundeza vai parar. Logo, o monstro pode vir de longe.

            É uma espécie de réptil com anfíbio pré-histórico, um misto de anaconda com pele de golfinho, cor de sanhaço e dentes de dinossauro. Já aviso aos navegantes: não adianta fazer campana para fotografá-lo, ele tem capacidades sensoriais inteligentes e só aparece de boa, para dar o bote.

            Muitos aristocratas afonsinos culpam as bolsas assistenciais pela inércia de nossa valorosa mão-de-obra; já outros esnobes afirmam que pobre não tem gana de trabalhar, mesmo com os cursos gratuitos do SENAI como garantia de pleno emprego.

            No entanto, desde que conheci o terrível poder do Monstro do Lago, eu posso avalizar o desacerto de todas as teses do conservadorismo acima, pois o prato predileto dele é trabalhador braçal.

            Na primeira vez, perdi o jardineiro: liguei para o especializado Marcos (não o Christian), da Decor. Ele me garantiu: “na segunda-feira, estou aí”. Que nada! Só encontraram a Kombi dele perto do lago, toda aberta, com o celular ainda ligado, em cima do banco do motorista, e as ferramentas de poda esparramadas no assoalho.

            Como sempre adoto o cuidado de ter um jardineiro de reserva, encontrei o prestimoso Marcelo, enquanto corria com as meninas pelo condomínio. Nem precisei pedir, foi ele que se ofereceu: “Doutor, posso dar um trato no quintal?”.

            Quimera! Estou esperando até hoje... Tal qual seu antecessor, só foram encontrados perto do lago os óculos escuros de boy e a carteirinha da academia de musculação do saudoso segundo homem do verde.

            Mas eu sou daqueles que não desistem nunca, haja vista que, em casa, sempre tem tarefa a fazer: enquanto o mato cresce, decidi reformar o divã detonado pelos gatos. Falei com Jesus (o do carreto, entendam bem), que atendeu minhas preces e passou em casa para pegar o móvel e transportá-lo até a tapeçaria.

            Quando chegamos lá, já eram quase 10 horas da manhã, mas o estabelecimento ainda estava com as portar cerradas. Sem saber o que fazer, pedi um conselho ao bêbado de plantão na calçada, que me apontou: “Doutor, ele mora ali”.

            Toquei a campainha e (que dó!) acordei o artesão. Fomos à loja, ajudei a abrir a porta de ferro, escolhemos o novo tecido, não regateei o preço e ele me ofereceu: “gente fina, não precisa pagar outro carreto. Eu mesmo devolvo na sua casa, na quarta-feira”.

            Passou-se um dia a mais que o prazo estipulado. Eu nem estava preocupado, mas vejam o que encontrei bem pertinho do lago: uma Belina I laranja, ano 1978, com adesivos de tapeceiro, abandonada com digitais do Monstro do Lago na lataria.

            Não discutirei as predileções do cardápio do misterioso anfíbio, mas precisava engolir o divã junto com a carne? Como consolo, pelo menos lembrei que o sinal dado de entrada era ínfimo.

            O problema é que o Monstro não se contenta com o lago e se aproxima cada vez mais de meu sagrado lar: por último, foi a vez do instalador de alarme residencial desaparecer.

            O serviço estava moroso, mas feito com um capricho de admirar: fios discretos, furos precisos, escolhas perfeitas para os sensores. Pena que o instalador tenha parado para almoçar: “Doutor, vou almoçar e volto logo em seguida para finalizar lá em cima”.

            Coitado de mim e sortudo do Monstro, que já deve estar com sobrepeso, de tanto deglutir prestadores de serviço: faz dois dias que o instalador de alarmes não volta dessa refeição. É o almoço mais longo já visto. Se não fosse a tragédia, daria até para inscrever no Guinness Book.

            Vasculhei incansavelmente as margens do lago, até encontrar a chave de fenda ao lado de um arbusto e a camiseta da empresa de segurança toda lanhada pelo ataque do Monstro do Lago. Mais uma vítima do famigerado!

            Eu estava tão absorto em meus tensos pensamentos, que tomei um susto quando Marcos Christian se aproximou repentinamente por trás. Educadamente, pediu-me a chave para lavar o carro.

            Por meu turno, aproveitei para lhe pedir que, ainda que se passassem muitos dias, que ele não deixasse de voltar com o automóvel, recomendando-lhe a máxima cautela com o Monstro do Lago. Foi o mote que desencadeou duras verdades:

            “Doutor, conheço este local como a palma da mão que me cobra o aluguelem atraso. Muitamaldade foi cometida dentro desse bambuzal. Não falo só de gente drogada, mas estupro e desova de cadáver”.

            “Credo, Marcos! Falemos de outro assunto”.

            “Depois, doutor. Antes, a verdade. O senhor precisa saber. Tome cuidado com a energia dos espíritos, aqui é muito carregado de sofrimento. Uma vez, eu vim nadar e vi um casal esquartejado. Os pedaços estavam pendurados no bambuzal. Um arranjo curioso e bem característico: sacrifício de religião pesada. Feito ao demônio mesmo. A imprensa abafou”.

            As informações passadas deixaram-me totalmente confuso. Teria o Monstro algo a ver com as macumbas malévolas da infância aquática de Marcos Christian, ou seria aquele uma força incontrolável da Natureza?

            Tomara que eu nunca saiba ao certo.

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