Home Data de criação : 10/03/05 Última atualização : 13/11/19 10:02 / 123 Artigos publicados

O CDF ABORRECIDO  (Cr?nicas) escrito em terça 19 novembro 2013 06:49

Blog de cidadaniaconsumidor :Realidade & Imaginação, O CDF ABORRECIDO

            A experiente professora de piano tem razão: eu era bom aluno, porém bagunceiro. Componente da turma do fundão, colecionava boas notas, três advertências e uma suspensão por ano letivo.

Embora eu entrasse de férias antes do feriado de XV de Novembro, existiam alunos melhores, notadamente entre a ala feminina, moças aplicadas e de caderno caprichado. O melhor aluno da sala, entretanto, era do time masculino.

José Augusto era infalível, perfeito em todas as áreas do conhecimento humano. As notas eram invariavelmente 10, sem exceção. Suspeitava-se até que ele sabia mais que os professores. Não duvido.

Havia um mestre de gramática, verdadeiro algoz, que aplicava provas dificílimas. Um dia, o teste de orações coordenadas assindéticas foi tão difícil, que a turma toda recebeu nota vermelha. Menos Zé Augusto, que tirou 9,0 e chorou de desgosto.

            Ele era um jovem quieto, pálido e de óculos. Parecia um bancário ou contador. Focado nos estudos, era antiquado, não ligava para a moda e penteava o cabelo para trás, como no Século XIX.

            Zé Augusto não gostava de infantilidades ou futilidades. Portanto, não conversava com os colegas. Vivia com os livros embaixo do braço. Os professores desafiavam a classe com perguntas difíceis, sempre com a ressalva:

- Quem souber, pode responder. Menos José Augusto - como ele sabia tudo, então a participação dele não valia.

Nas excursões do colégio, ele ficava isolado e sentava na primeira fileira do ônibus. Enquanto a turma se divertia, Zé Augusto vagava sozinho por museus, fábricas, laboratórios, bibliotecas, sítios históricos, exposições de arte, feiras de tecnologia ou qualquer lugar em que se aprendesse algo útil.

Os pais dele nunca foram vistos na escola. Nunca eram chamados para orientação, não era necessário. Decerto eles conheciam bem o gênio que tinham em casa. A escola também sabia e não interferia: não se reformula ambiente vencedor.

José Augusto não namorava, não praticava esportes e não cultivava hobbies. Qualquer devaneio era inimigo do saber. Vivia como monge entre as enciclopédias. O lema era estudar sem intervalos, interrupções ou distrações.

A verdade é que ele era um chato de galochas, um grandessíssimo CDF e nem os professores aguentavam os rigores de seu amor pelos estudos.

Finalmente, veio o dia do vestibular. Enquanto José Augusto chegou ao local de prova com antecedência e munido de uma coleção invejável de lápis novos, aos pobres diabos que estudaram pouco só restava rezar.

Semanas depois, o resultado saiu: a maioria não passou nas faculdades públicas e se virou – alguns arrumaram emprego de balconista, outros se matricularam na faculdade particular do bairro.

José Augusto ficou decepcionado, pois não passou no ITA. Envergonhado com seu desempenho abaixo do esperado, saiu aborrecido da escola. Foi aprovado “somente” na UNICAMP, na USP e na UNESP. Decidiu fazer ciência da computação na primeira.

De vez em quando, reencontro algum amigo do colégio e relembramos os bons tempos. Poucos se lembram de Zé Augusto, os que conseguem puxar da memória desconhecem por completo seu paradeiro.

Aí, entre um chope e outro, ouço a criatividade dos palpites dos antigos companheiros:

- Foi contratado pela NASA.

- É cientista do programa atômico do governo iraniano.

- Ele não se adaptou ao mundo e ficou louco, com certeza.

- Faz revisão de livros para algumas editoras.

- Está desempregado e vive de bolsa-família.

Da minha parte, confesso que não faço a mínima ideia. Já busquei o nome completo dele nos mecanismos de busca da internet, mas nada aparece. Portanto, a única certeza é permanecer Zé Augusto um personagem discreto e apartado da normalidade.

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CARTA DE UM CLARETIANO  (Di?logos com o leitor) escrito em quinta 07 novembro 2013 05:36

Blog de cidadaniaconsumidor :Realidade & Imaginação, CARTA DE UM CLARETIANO

Prezada Bruna,

Com saudades do passado, eu procurava fotos e dados sobre o Colégio Claretiano de Guarulhos, quando li sua mensagem. Você pediu que ex-alunos entrassem em contato e enviassem seus relatos.

Estudei no Claretiano em 1980. Cursei a segunda série (atual terceiro ano do ensino fundamental), tinha oito anos, era oriundo de outro colégio católico de São José do Rio Preto.

O prédio não era pintado de amarelo com faixas brancas nas janelas, como hoje. A cor era escura, creio que cinza ou verde. Era bem conservado e sem pichações, diga-se de passagem. A entrada no meio da fachada, tal qual atualmente, nunca era aberta. A movimentação era toda pela rampa do portão do canto.

Minha sala era no primeiro andar. Eu nem chegava a descer a rampa, pegava logo uma escada à esquerda para entrar no prédio. Subia um lance e a sala era a última da esquerda. O piso era de azulejos foscos antigos nos corredores e madeira dentro das salas de aula; as paredes, todas brancas.

As salas de aula eram todas iguais, e tão amplas como os corredores, com janelas altas que proporcionavam luz e ventilação, porém não davam visão externa para distrair os alunos, que eram muitos em cada turma (por volta de quarenta).

No meio do prédio, havia um pátio de pedra bastante parecido com as arcadas da faculdade de direito do Largo de São Francisco. Abaixo, havia escada e rampa para as quadras de esportes, onde se concentrava a maior parte dos alunos durante o intervalo.

As meninas conversavam, brincavam de boneca, elástico, bambolê ou pulavam amarelinha nos cantos. Os rapazes ocupavam as quadras em jogos de futebol de salão. Em frente às quadras, no porão do prédio, havia o laboratório científico da faculdade.

Os alunos do colégio diziam, ressabiados, que havia uma caveira no laboratório, o que causava apreensão e medo em alguns de nós. Ainda não havia a universidade, o nome era Faculdades Claretiano.

A professora era brava, distribuía muitas e largas broncas, comedidos e raros elogios. Entretanto, não presenciei castigos ou reprimendas físicas. Nem seria preciso, todos tinham bastante medo dela.

A disciplina e o silêncio imperavam na classe. A professora era muito atenta e comandava com mão de ferro. Os alunos de mau aproveitamento ou comportamento inadequado eram premiados com bilhetes aos pais.

As aulas eram muito puxadas, as matérias estavam todas à frente do colégio em que eu estudava no interior, que também era muito bom. O Colégio Claretiano desfrutava de excelente conceito em Guarulhos.

O método era o tradicional e corrente à época – aulas expositivas, com uso de caderno, lousa, giz e livros didáticos. A professora, além das tarefas, mandava os alunos fazerem experiências em casa, como a da germinação da semente no algodão úmido.

O formato das aulas acompanhava o ritmo da metrópole – as explicações eram rápidas, a professora não tinha muita paciência e o cabeçalho do caderno para abertura dos trabalhos era mais simplificado que os do colégio do interior.

Durante o ano letivo, morreu o poeta Vinícius de Moraes. A diretora estava atenta às atualidades e imediatamente determinou à professora que transmitisse a importância histórica do escritor e compositor. Por isso, aprendemos a cantar A Casa.

Não havia religião nas aulas, o conteúdo era predominantemente técnico. Havia um padre estrangeiro constantemente presente à escola, mas para supervisão administrativa. Ele não tinha muito contato com os alunos. Da diretoria não me recordo mais nada.

Um dos rigores da escola era o uniforme – os meninos vestiam calça azul marinho de tecido e camisa branca com o logotipo da escola no bolso; as meninas, saia de pregas e a mesma camisa branca. Todos de sapato preto e meia branca.

O uniforme de educação física era trajado com orgulho pelos alunos. Era uma camiseta olímpica verde-oliva, golas e alças com detalhe amarelo. Era de poliéster, tecido bem tecnológico naquele tempo, com o logotipo da escola bordado. Eu gostava tanto, que usava até fora de lá.

Ao contrário do colégio de onde eu vim, as professoras não deixavam chamar de tia e os funcionários não eram bonzinhos. Por outro lado, o bullying não era tolerado, não importava de quem o aluno era filho (a cidade já era grande e nem havia essa cultura) e, portanto, não ocorriam as tradicionais brigas na porta da escola.

Passar um ano longe de sua cidade não é uma experiência fácil para uma criança, pois envolve adaptação a um novo estilo de vida. Mesmo assim, só guardo boas recordações do Claretiano e agradeço a minha mãe por ter sido tão zelosa naquele período de transição e proporcionado a formação que tive.

Gostaria muito que existisse uma máquina do tempo para eu voltar à escola para observar tudo de novo, exatamente como era. Hoje, os resquícios físicos são melancólicos e nem de longe retratam o que foi um dia o glorioso Colégio Claretiano.

Agora pensando, só uma dúvida me deixou pensativo. Não lembro a existência de biblioteca na escola. Deveria haver uma, com certeza. Decerto eu é que não era ligado a leituras naquela época, uma pena.

Espero ter sido útil ao seu TCC e desejo boa sorte. Saudações,

José Luiz Bednarski

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O LOUCO DO BILHETE PREMIADO  (Cr?nicas) escrito em sábado 26 outubro 2013 11:23

Blog de cidadaniaconsumidor :Realidade & Imaginação, O LOUCO DO BILHETE PREMIADO

            Loucos têm forte atração por repartição pública. Seja pronto-socorro, delegacia de polícia, posto da receita federal, creche municipal, escola estadual, fórum, o que for. Tenho cá meus palpites, mas a realidade é que não sei bem os porquês.

            O louco fica à espreita, de campana. Aguarda um descuido da segurança para entrar e finge que é pessoa normal, com algum problema sério para resolver e sempre precisa falar com o chefe da repartição, com urgência.

            Em Monte Alto, eu trabalhava numa sala bastante acessível, bastava subir a escadaria do fórum e o cidadão topava com a promotoria. Inexistia sala de espera - era bater na porta e dar de cara comigo.

            O meu louco chegava sempre que a funcionária do ministério público saía para almoçar. Decerto da praça ele a observava e aguardava o momento certo para atacar, com seus grandes olhos azuis esbugalhados de insanidade.

            Quando nos apresentamos um ao outro, ele apontou a cabeça pela porta e disse para dentro da sala:

            - Dá licença! – já entrou e, sem esperar resposta, se instalou confortavelmente no sofá em frente à mesa do promotor, esparramando os braços morenos pelo estofo. Portanto, dica aos promotores iniciantes: vá almoçar. Não dê sopa no fórum, em hora vazia.

            - Pois não, em que posso ajudar?

            - Ganhei na loteria.

            - Que sorte, meus parabéns!

            - Primeiro prêmio, todas as frações do bilhete e valor acumulado, ainda por cima.

            - Puxa vida! Então retiro a pergunta, o senhor não precisa de ajuda.

            - Preciso sim – ele pareceu ofendido com meu último comentário. Quem mandou querer bancar o engraçadinho. Um louco nunca se revela a princípio.

            - Por quê?

            - Perdi o bilhete.

            - Não é possível. Que azar danado!

            - Pois é...

            - Procure bastante, vasculhe a casa, deve estar em algum lugar.

            - Já fiz, não está lá – a face do visitante ficou muito sombria. Aí desconfiei de algum traço de loucura.

            - Procure no seu trabalho, na casa de algum parente.

            - Sou encostado pelo INPS e meus parentes podem ter me enganado.

            - Então não sei como ajudá-lo, pois o senhor precisa do bilhete para retirar o prêmio.

            O cidadão se levantou do sofá e foi em direção de minha mesa. O pescoço dele estava rígido, uma veia grossa pulsava na pele.

            - Mas Jesus sabe que eu ganhei!

O tom de voz subiu, o que chamou atenção do guarda municipal. Ele veio à porta e perguntou se eu precisava de alguma ajuda. Fiz sinal para que aguardasse e tentei chamar o intruso à razão:

- Louvo sua fé, reze bastante para ele. Porém, o senhor precisará necessariamente do bilhete para receber o prêmio na Caixa Econômica Federal.

O louco ofendeu-se profundamente com meu último comentário, começou a gritar fanatismos e me amaldiçoava como cúmplice de seus parentes que escondiam o bilhete premiado.

Alarmado, saí da mesa e fui em direção à porta. O louco veio atrás e o agente de segurança interveio para segurá-lo. Pedi ao guarda que o acompanhasse até a saída. Veio um policial militar ajudar e os dois carregaram o insano pelos braços, um de cada lado. Enquanto era levado como um andor, o louco gritava palavras religiosas de ordem e sacudia os pezinhos no ar.

Alguns funcionários do judiciário ouviram os gritos, foram conferir e só viram o homem ser expulso da sala da promotoria pelos policiais, o que passou uma impressão parcial do ocorrido. Inexperiente e protagonista do escândalo, corei de vergonha.

Em seguida, o guarda veio conversar comigo, pediu desculpas pelo susto e justificou que não imaginava se tratar de uma pessoa problemática. Prometeu atenção redobrada. Eu aproveitei para pedir:

- Se este voltar, não o deixe entrar. Detenha-o por alguns instantes, ligue para o SUS e peça uma ambulância para levá-lo ao CAPS, onde deverá ser medicado e encaminhado à família para tratamento ambulatorial contínuo.

- Pode deixar, doutor – respondeu o prestativo guarda municipal, sabedor de que meu maravilhoso roteiro teórico não funcionaria bem na prática.

Dito e feito: na semana seguinte, o louco voltou a atacar. Após algumas tentativas em que foi barrado pelo guarda, ele conseguiu furar a segurança. Desta vez, aproveitou-se do horário de almoço do vigia.

Desta feita, ele entrou mais rápido, sem pedir licença e logo se refastelou no sofá. Não tinha tempo a perder, antes que alguém da segurança aparecesse. Eu também me levantei depressa e fui ao sentido contrário, em direção à porta.

- Cadê meu bilhete? – o louco estava mais petulante e exigia seus pretensos direitos.

- Como vou saber? Desculpe, não posso ajudá-lo.

- Pois aguarde a ira do Cristo, ímpio! Todos os safados serão sentados e julgados numa cadeira azul, donde há de surgir uma esfera laranja que tocará um colorido especial em cada qual – os olhos azuis ferviam de alucinação.

O louco delirava tanto, que parecia estar muitas horas sem seu medicamento sossega-leão. A funcionária do ministério público, pálida na mesa ao lado, ficou sem entender nada.

- Ajudem, por favor! - eu saí do sério, refugiado no átrio. Veio o PM acudir da sala de audiências, e retirou sozinho o maluco, com alguns safanões pela escada abaixo.

A partir de então, o diretor do fórum houve por bem redobrar a segurança e o louco ficou muitas semanas sem aparecer. Eu praticamente nem lembrava mais do ocorrido, que foi ao mesmo tempo engraçado e amedrontador.

Passados alguns meses, o comandante do batalhão pediu de volta o PM extra, para reforço do policiamento nas ruas. Assim, a segurança afrouxou e o louco voltou à minha sala. Como na primeira vez, ele colocou a cabeça para dentro da porta:

- Ainda está nervosinho ou já se acalmou? – nesta última vez, ele estava mais espirituoso, o que me irritou bastante. Aí sim fiquei nervosinho.

- O que o senhor quer? Já disse: não posso ajudá-lo. Faça-me um favor: vá embora! – respondi, em tom mais ríspido, para encurtar a conversa.

- Tudo bem, não precisa ficar nervosinho de novo. Mas o meu bilhete premiado da loteria? – ele estava mais maligno do que antes.

Eu já estava um pouco desgastado, pelas circunstâncias: longe de casa, distante de minha família, numa cidade em que não me adaptei muito bem. Também estava acumulado de trabalho porque a outra promotoria da comarca estava vaga. Enfim, as visitas seguidas do louco esgotavam minha paciência.

Aproveitando que a funcionária do MP saíra para consultar um processo e que estava sozinho na sala com o doido, resolvi mudar de estratégia para tratar do assunto. Decidi dar uma de louco também. Quem sabe na linguagem dele as coisas se resolviam:

- Já falei com Jesus Cristo, senhor. Ele é a testemunha. Seu caso nem está mais aqui no fórum, mas na cadeira azul. É só o senhor ir até lá e procurar o setor de coloração laranja. Ou o castigo para os ímpios, amém!

Disse tudo bem rápido e o louco pareceu um pouco confuso com minha resposta sem sentido. Ficou pensativo por algum instante, como se processasse todas aquelas informações. Ao final, pareceu mais tranquilo, olhou para mim como se o louco fosse eu e foi embora sem se despedir.

 Nunca mais voltou.

A partir daí, passei a usar sempre essa técnica de falar “com eles como eles” e sempre deu certo, pelo menos até a chegada da ambulância e da camisa-de-força, sem a necessidade de intervenção física da vigilância.

Aproveito para uma dica aos novatos que lidarão com público, do que já constatei de anos de experiência com os loucos de pedra que aparecem na promotoria: nem todo louco se veste assim, mas quase todos os senhores que usam ao mesmo tempo chinelo de borracha, roupa social e boné de propaganda eleitoral vencida de deputado estadual são loucos.

Confira e depois me conte.

Pode ser que não orne, mas honestamente não faço a mínima ideia de como cheguei a tal conclusão. Só um brocardo latino explica isso: id quod plerumque accidit. Em vernáculo, significa mais ou menos o seguinte – “é o que normalmente acontece”.

Regras de experiência, em bom jurisdiquês.

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CHUCK NORRIS NUNCA CORREU UMA MARATONA  (Esportes) escrito em domingo 20 outubro 2013 16:14

Blog de cidadaniaconsumidor :Realidade & Imaginação, CHUCK NORRIS NUNCA CORREU UMA MARATONA

            Eu deveria ter desconfiado: a doença mandou sinal. Um menino de oito anos não anda em carrinho de bebê. Se ele estivesse saudável, também não vomitaria na porta de embarque, bem na minha frente.

            Ele estava muito enfermo. O médico da companhia aérea interveio para evitar a viagem, porém a família insistiu em prosseguir no voo. Azar meu, onze horas trancafiado ao lado do vírus.

            A rota de colisão com a Maratona de Chicago percorreu o seguinte itinerário progressivo: indisposição, coriza, dor de garganta, enxaqueca, febre, calafrios, suores, dores abdominais e ânsias.

            A véspera encontrou-me de cama logo depois do almoço, sob chuva de comprimidos e lenços. Sobrevivi até a manhã seguinte e acordei animado o suficiente para não perder a festa.

            Foi uma ilusão de melhoria, erro pelo qual paguei caro: proscrição antes mesmo do décimo quilômetro. Era hora de parar, mas não sabia onde estava e me esqueci de levar dinheiro. Bolso vazio, energia também.

            O percurso parecia todo igual – selva de prédios em retas e curvas, uma incógnita. Não sabia quão distante estaria o hotel. Só sabia que era perto do local da largada, que era o mesmo da chegada. Logo, por ora, o melhor seria continuar na prova. Uma tortura para o corpo.

            Não corri completamente: a cada nove minutos, um caminhado. A intenção era guardar uma reserva até o final da corrida, em caso de agravamento da indisposição. Era claro que não daria certo, só meu otimismo não aceitava.

            Depois de 21 quilômetros bem lentos, meu pensamento era “já foi metade”, mas do corpo só restava uma fina poeira de couro. Lembrei-me da debutante gripada que morreu no voo de volta da Disney. Minha vez estava próxima, era só forçar um pouco mais.

Meu ritmo diminuiu até meu trote lento virar uma sucessão de passos arrastados. Todo mundo me passou, até o equilibrista, um vexame. Era hora de desistir, mas a área parecia afastada do centro, talvez um campus.

            O fundo do poço ainda não fora alcançado. A mulher de cento e vinte cinco quilos também me passou, com sua saia colorida de tule que lembrava um personagem de Fantasia, de novo Disney.

            Vinte e seis quilômetros e uma certeza: nenhum organismo vivo seria mais lento que eu naquele instante. O vírus estacionou na minha cabeça e fincou garras afiadas entre o córtex e o cerebelo. Tudo pesou.

            Olhei para trás e vi o final da corrida pela primeira vez. O fundo do poço: alguns deficientes físicos da última idade e uma viatura da polícia. Eu parecia estar no último batalhão da Guerra do Paraguai, um quadro desolador.

            O policial motorista abriu a caixa de som e convidou os últimos colocados a reconhecer a impossibilidade de chegar ao fim, aconselhando que se postassem na lateral da pista e aguardassem o ônibus do prego.

            Senti um alívio tremendo. Enfim, eu decidi parar, o ônibus levaria a todos os desistentes até a chegada, perto do hotel. A primeira ação sensata do dia. Plenamente compreensível – motivo de doença. Até que fiz bonito até onde cheguei. Um piano saiu das minhas costas.

            Enquanto o resgate não chegava, decidi relaxar e aumentar as sessões de caminhada. Um minuto a cada três de corrida. E assim se foi mais uma milha. Milhas intermináveis, mais longas que nossa medida de quilômetros. Onde estava o ônibus que não chegava nunca?

            "Quer saber: já corri mais ou menos vinte e oito quilômetros e estou um bagaço. Se correr não tinha sentido, parar muito menos. Agora que vim até aqui vou até o final, pois só faltam catorze. Basta fugir do resgate".

            Tirei forças do fundo do baú dos dez meses de treinamento para a maratona. Quando acabou, abri o outro bauzinho, o da experiência de três maratonas e puxei mais fundo. A exaustão eu descansava no minuto da caminhada.

            Ultrapassei todos os lentos de volta, até a bailarina do desenho Fantasia. Ou melhor, quase todos, pois o equilibrista já estava bem na frente. O fundo da corrida ficava cada vez mais distante.

            Faltando três milhas (cerca de cinco quilômetros), já estava seguro de não correr mais o risco de ser retirado da maratona. Por outro lado, o corpo doente travava, minha garganta parecia as obras do metrô.

Estava difícil completar, mas agora era só tirar o coelhão da cartola da malandragem: aumentei as sessões de caminhada, corria um minuto e andava outro. Mirei no casal polonês exausto e pensei “aonde eles forem, vou também”.

            Quando a linha de chegada apareceu, não vislumbrei uma miragem. Eu não controlava mais nada em mim e era só uma bola de carne e pelo em busca do fim do pesadelo.

            Seis horas e meia correndo com febre, dor de cabeça e cólicas. Babava, chorava e falava sozinho, palavrões em português. Estava em transe. Ganhei uma cerveja patrocinadora (que não consegui beber, claro) e uma capa para me proteger do vento frio.

            Cheguei trêmulo ao hotel e sem conseguir explicar direito. Do banho para cama e mais uma tempestade de remédios. Incrivelmente, estava melhor no dia seguinte – apenas cólica e o piano de volta à cabeça.

            Como quase não consegui correr, não fiquei com dores nas pernas. Somente uma vontade louca de nunca mais enfrentar maratonas, macarronadas e pessoas contaminadas em aviões.

            Já voltei para casa e as corridas. Até acrescentei musculação e natação. Porém, as ânsias permanecem e alguma dor abdominal. Ainda não consigo comer direito: tenho fome, mas vontade de comer só salada.

            Da Maratona de Chicago, lembro-me dos prédios imensos, do cenário urbano ao extremo e dois cartazes que se repetiam pelas vinte e seis milhas: “Chuck Norris nunca correu uma maratona” e “pior desfile já visto”.

            Concordo plenamente com o teor de tais mensagens: não poderiam ser mais fieis à realidade dos fatos!

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O CERTO E O ERRADO  (Cidadania) escrito em terça 08 outubro 2013 08:41

Blog de cidadaniaconsumidor :Realidade & Imaginação, O CERTO E O ERRADO

            Quinta-feira passada, assisti a uma palestra de título intrigante – O Certo e O Errado. Ministrou-a o médico, empresário, perito e livre-pensador Osvaldir Vieira da Silva, em evento destinado a jovens de12 a 21 anos.

            Evidentemente não tenho a idade requisitada, mas me sobra a sede de saber da juventude. Então, fui conferir a mensagem que o palestrante tinha para deixar aos jovens de Jacareí.

            Dr. Osvaldir frisou a necessidade de agirmos com tolerância no julgamento alheio e orientou os presentes a pautar o certo pela lente de um critério democrático – a norma de conduta aprovada e adotada pela maioria.

            Saí do evento com ótima impressão de ter empregado bem o meu tempo livre. Encontrei um conferencista inteligente, divertido e que prega os raros valores da tolerância e da democracia, em tempos de tanto desacordo e intransigência.

            O mesmo tema já foi objeto de ensaio por Sêneca, que entendeu ser o certo toda a ação que praticamos de acordo com a natureza das coisas. A contrário senso, o errado são as práticas antinaturais. Que definição interessante!

            O certo é intuitivo e envolve tudo que nos leva a crescer como homens. Por exemplo, a prática desinteressada do bem, o respeito ao próximo, valorizar a convivência social harmônica. É não prejudicar desnecessária ou injustamente a si próprio ou a alguém.

Já o errado é qualquer prática que impele o ser humano para hábitos viciosos, nocivos, prejudiciais. Ao invés de ser intuitivo como o bem, a ação do mal é racionalizada e implica inúmeras fórmulas mentais para justificá-la como prática legítima.

Quase ninguém duvida que poucos homens estiveram tão errados na História como Adolf Hitler ao defender a teoria da supremacia da raça ariana (que nem raça é porque só existe uma – a humana) e o extermínio de judeus.

Pois o führer precisou escrever um livro – Minha Luta - para conseguir justificar a si mesmo e à sociedade todas as atrocidades que pretendia mandar praticar. Logo, o errado é também um desperdício de inteligência.

O mais curioso é que Hitler escreveu sua obra enquanto estava preso, um detalhe que, por si só, já não recomendaria muito a essência do autor. Pobre humanidade, que sentiu na pele a teoria errada ser aplicada na prática.

Por falar em cadeia, o promotor e o juiz criminal são obrigados a visitar mensalmente a penitenciária da cidade em que trabalham. Pelo menos um promotor e um juiz por cidade.

Assim, antes de assumir meu cargo atual em Jacareí, trabalhei em cidades menores em que eu era o único promotor. Todos os meses eu ia com a juíza (ou juiz) na cadeia pública ouvir as queixas dos detentos.

O curioso é que os presos não tinham somente reclamações carcerárias a formular: contavam histórias complexas e longas para justificar sua inocência e a injustiça da condenação. Consideravam-se vítimas de poderosas conspirações.

Era tanta informação relatada, que eu sempre saía confuso. A lembrança que me permanece é: não conheço local onde se reúnam tantas pessoas que se consideram injustiçadas e inocentes como a cadeia.

Transportei a experiência para o atendimento de casos de direito do consumidor e verifiquei que a mesma situação acontece em relação aos estelionatários que se aventuram na fantasia de empresários.

Eles não entregam a mercadoria e, ao mesmo tempo, não devolvem o dinheiro. Mesmo assim, não admitem que lesam o consumidor: jogam a culpa no fornecedor, no consumidor, na prefeitura, no juiz, na corrupção, na Bolsa de Nova York. Em todo mundo, menos neles.

É um padrão recorrente de comportamento muito discrepante de ser correto: fazer o certo não despende analisar muito, basta coragem de assumir a responsabilidade que lhe cabe.

Quem faz a coisa certa não precisa falar extensamente, se gabar, temer conspirações ou o clamor das ruas. É gente serena, que mais descansa do que se justifica ou comemora. Dorme bem à noite, com a cabeça no travesseiro, a consciência tranquila.

Quem age corretamente, não precisa dizer muito e nem carece de demasiadas linhas para se justificar. Vejam, a contrário senso, os ministros dos mais altos tribunais, que, para explicar suas lambanças, sentem-se pressionados e tão longamente precisam fundamentar seus votos.

Isso, sim, não é nada certo.

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